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O caso Wings – Até onde deve ir uma organização de eSports

Por RTP Arena em

A notícia caiu como uma bomba. Wings Gaming de Dota 2 dão disband!

Ok, compreende-se que poucos encarem isto com o impacto devido, eu reformulo a frase: A segunda equipa de eSports mais lucrativa de sempre, com uma faturação em prémios de mais de 9.7 milhões de dólares, atrás apenas dos Evil Geniuses, com 15.4 milhões de dólares, acabou de… puff, sumir. Percebo que, para muitos, isto ainda faça levantar o sobrolho como forma de interrogação. Afinal, os Wings não são – não eram! – uns históricos da scene de eSports. Não têm a vetusta antiguidade de uns Fnatic ou de uns SK Telecom. Os Wings surgiram apenas em 2014 como uma mescla de jogadores chineses, conhecidos pubstars da scene chinesa. E, durante algum tempo, foram apenas isso, uma equipa de pubstars, sem grande relevância na scene internacional, minúsculos ao lado das gigantes organizações chinesas como Vici Gaming, Newbee ou LGD.

Mas, em 2016, o conto de fadas tornou-se realidade. A equipa que, em ano e meio, tinha logrado conquistar menos de cinco mil dólares em prémios, sobe ao grande palco do The International e, sem nada a perder, numa quase eterna sucessão de jogos David vs Golias, depois de terem subido a pulso pelos qualificadores chineses, depois de terminarem em terceiro na fase de grupos, ultrapassando nomes como LGD, Alliance ou Na’Vi, agarraram-se com unhas e dentes à Upper Bracket e, depois de relegarem para a Lower Bracket os favoritos OG logo na primeira ronda, seguem nas rondas seguintes sem conceder sequer uma derrota, eliminando os vencedores de 2015 Evil Geniuses na final da Upper Bracket até à final onde, frente a uns também surpreendentes estreantes Digital Chaos, conquistam por 3-1 a vitória no The International e a distinção no Guinness como a equipa que conquistou o maior primeiro prémio de sempre, no mundo dos eSports.

Wings

 

Nove milhões de dólares. Mais do que Cloud9 e Team EnVyUs lograram atingir, juntas, desde o seu lançamento. A vitória, o estatuto e o recém-adquirido poderio financeiro catapultaram a equipa para o topo, envolvendo-a em vários torneios que permitiram manter um confortável fluxo de dinheiro para a organização. Então, que se passou para, poucos meses depois, os jogadores saírem de armas e bagagens da organização que fundaram, para reiniciar novo projecto, desta feita sob o nome Team Random?

Sendo frescas as notícias, é difícil ainda obter confirmações ou esclarecimentos oficiais, mas aquilo que vai sendo anunciado em diversos sites (como o IGN, o KillPing e o JoinDota) e no Reddit de Dota 2 é que o actual dono da organização terá investido perto de 3 milhões de dólares para lançar uma equipa Coreana de League of Legends. Ora esse investimento falhou, o dinheiro perdeu-se e os jogadores da equipa de Dota 2 zarparam para outras águas. Falta ainda uma declaração oficial da recém-criada Team Random, mas há várias questões que se levantam. A primeira que me apraz perguntar é… Porque diabos decidem matar a galinha dos ovos de ouro, sacrificando a equipa que vos deu a totalidade do vosso capital, para investir num outro mercado?

Confesso que a quase obrigatoriedade de ter organizações Multigaming me causa alguns pruridos. Oh, faz algum sentido, na vertente expansionista do negócio ou até na vertente eclética de cobrir vários jogos, mas se a vaca sagrada reside num jogo, não se sacrifica essa vaca para alimentar o ecletismo. Tomemos os Evil Geniuses como exemplo. São a equipa mais lucrativa de sempre, com perto de 15 milhões de dólares angariados em prémios de eventos. Desses 15 milhões, mais de 13.5 milhões advêm da sua equipa de Dota 2. Oh, sim, os EG têm divisões de League of Legends, de Halo, de StarCraft 2…. mas não estão, não estariam, não poderiam NUNCA estar dispostos a sacrificar a base da sua estrutura para investir num outro mercado. Seria como deitar abaixo todo o rés-do-chão de uma casa para construir uma chaminé bonita no telhado. Outro caso, os Na’Vi. A equipa, de base Ucraniana, divide-se em vários jogos. A fatia de leão também é de Dota 2, a contribuir com mais de metade dos 6 milhões até agora angariados, mas Counter-Strike:Global Offensive assume um valor significativo também. Que têm feito os Na’Vi? Reformulado, vezes sem conta, a sua equipa de Dota 2 que tem passado por fases menos boas, sem dúvida, mas continua a ser a vaca sagrada no meio daquelas equipas, logo, protege-se e reinveste-se na equipa.

É que uma equipa é mais que a soma dos jogadores individuais que a compõem. Sem dúvida. Mas é, simultaneamente, mais, muito mais do que o nome da organização que lhes pinta as camisolas. A Valve percebeu-o bem, há já bastante tempo, e há muito que tomou uma medida: em eventos da Valve, o convite é feito aos jogadores, não ao nome da equipa.

Isto pode parecer confuso para nós que estamos habituados a olhar para o futebol. Imaginem que o Belenenses vencia uma Taça de Portugal e, com isso, assegurava um lugar na Liga Europa. E, fruto desse sucesso, imagine-se que o Belenenses vendia todos os seus jogadores ao Barcelona. Pelas regras da Valve, seria o Barcelona – ou os jogadores que conquistaram esse feito – a estar presente nessa Liga Europa. É descabido para o futebol, sim. Mas, estranhamente, para um mercado em crescimento e ainda à procura de maturidade como o dos eSports, isto faz bastante sentido. As organizações são voláteis. Ainda se contam pelos dedos de uma mão as que têm mais de 5 anos de bagagem. E menos serão as que apresentam uma organização coerente e competente ao longo desse período. Na alta competição dos eSports uma equipa é um conjunto de jogadores e a forma como estes lidam entre si e se adequam à especificidade de um jogo e de uma fase desse jogo. Em 5 jogadores, a saída de apenas um pode fazer desmoronar quase por completo aquilo que eram mecânicas trabalhadas e executadas ao longo de vários anos, e não faltam exemplos disso mesmo em várias equipas de topo, em diversos jogos.

A presença dos jogadores que compunham a equipa dos Wings no próximo Major da Valve, em Kiev, está, por isso, assegurada. Se não é com o nome de Wings, será com outro nome qualquer, exactamente como aconteceu com os gregos que, saindo da organização Ad Finem, se juntaram à recentemente ressuscitada divisão de Dota 2 dos Mousesports. O que nos leva a outra questão: O que é que uma organização pode, verdadeiramente, oferecer a atletas de alta competição nos eSports? Não me refiro a jogadores recentes, à procura de lugar na scene e de ganhar uns cobres, que possam, de facto, usufruir de um ordenado que lhes permita viver e encarar o treino como verdadeiramente profissional. Mas… aos que já são profissionais, aos que já têm uma conta bancária recheada, o que é que uma organização pode, verdadeiramente, oferecer?

E esta é uma questão complexa, que gostaria de ver abordada também por alguns dos líderes das maiores organizações portuguesas na área dos eSports – e até no seguimento de conversas que tive com alguns deles. Por aqui, a nível amador, muitas equipas funcionam ainda na premissa de “recrutamos equipa de ABC, inscrevam-se!”. Que não é, de todo, indicativo de uma organização que procura ir além do puro ecletismo da coisa. O que pode, afinal, uma organização oferecer a um conjunto de jogadores, como forma de os cativar, orientar, motivar, apoiar? E… até que ponto pode/deve essa organização gerir os ganhos desses jogadores, limitando-se a si mesma na sua intervenção para que isto que se passou com os Wings não torne a acontecer?

Fica a discussão…
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Crónica do Rubber Chicken pela mão do Ricardo Mota

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