Marathon é a primeira proposta da Bungie, criadora de Halo e Destiny, depois da sua aquisição pela Sony. Mas valerá a pena? E mais importante, será que sobrevive?
A indústria dos videojogos não é a mesma de há dez anos. Desenvolvedoras que em tempos faziam jogos por paixão, pela aventura e descoberta, e porque acreditavam que a sua criação tinha o poder de tocar no coração dos jogadores são cada vez mais escassas. Elas ainda existem e, quando saem da toca, tendem a trazer consigo experiências que ficam gravadas na memória dos seus jogadores por anos a fio.
No entanto, a realidade fria é que, nos dias de hoje, muitas sucumbiram ao corporativismo. Perseguem deadlines como ratos atrás de pão e queijo, muitas sem se aperceberem de que essa busca insaciável pela fortuna não passa de uma ratoeira, desenhada para as levar à ruína.
O pão e queijo de eleição das desenvolvedoras de videojogos nos dias de hoje são os famosos live-services, que de certeza já ouviste falar. Jogos como Fortnite, que são pensados e desenhados de forma a agarrar o jogador por um tempo indeterminado (idealmente para todo o sempre), dando-lhe conteúdo novo de tempos em tempos para saciar a sua vontade de mais.
No entanto, Fortnite é um exemplo tanto de sucesso como de que para alcançar a fama que a Epic Games alcançou foi preciso imenso sacrifício. Nomes como Fortnite ou Call of Duty não nascem da noite para o dia, algo que muitas empresas falham em ver, resultando em obras como Concord ou Highguard que, em busca de tudo, tudo perderam, fechando os seus servidores brevemente após os respetivos lançamentos.
Mas vamos ao que interessa: lembras-te do Halo ou mesmo do Destiny? Bem, a sua desenvolvedora, a Bungie, agora um estúdio pertencente à frota da PlayStation Studios, promete trazer competição ao hit multiplayer da atualidade, Arc Raiders. Como? Com o seu novo título: Marathon.
A questão que fica é a seguinte: no meio de tantas histórias de falhanços e de uma comunidade cansada de propostas sem vida, será que a Bungie vai conseguir remar contra a maré e deixar a sua marca? Ou será que, como várias antes dela, vai cair no esquecimento? Vamos descobrir.

Créditos: Bungie
Tau Ceti é uma autêntica galeria de arte
Marathon é um extraction-shooter em primeira pessoa, onde tu e até mais dois amigos exploram os mundos de Tau Ceti em busca de mantimentos e realizam contratos mercenários para grandes corporações e partidos políticos, enquanto sobrevivem aos robôs da UESC e a outros Runners que, como tu, estão no terreno para completar objetivos para os quais foram contratados.
Visualmente, o jogo é de fazer cair o queixo. A Bungie adotou um estilo de Graphic Realism, um tipo de arte distopiana, futurista e extremamente contrastante, e aplicou-o na perfeição, alcançando visuais memoráveis e inéditos.

Créditos: Bungie
Vale lembrar que durante o processo de desenvolvimento do jogo, a Bungie foi acusada de plágio pelo artista Antireal pela arte conceitual do seu jogo. No entanto, a acusação foi desde então resolvida ao agrado do artista. A desenvolvedora prometeu emendar o que havia acontecido, o que parece ter de facto feito, comprometendo-se ainda a realizar uma investigação para perceber a origem do problema em questão.
Somando ao seu estilo artístico, Marathon apresenta três mapas únicos (com um quarto já confirmado pela empresa) nos quais podes completar contratos específicos, mas onde também terás diferentes desafios e barreiras com o simples propósito de te atrapalhar. Cada mapa apresenta não só um bioma diferente, desde rochedos frios e selvas tropicais até bases espaciais, mas também um nível de dificuldade diferente, sentido através de inimigos mais fortes e de certas peculiaridades de cada mapa, como, por exemplo, no terceiro mapa, uma chuva de magma.

Créditos: Bungie
“If it’s not broken, don’t fix it.”
Já a movimentação e o gunplay, estes são extremamente saborosos e é aqui que o jogo brilha. Repleto de lutas intensas, seja com outros jogadores ou com a IA, cada segundo que passas dentro de uma batalha é um de recompensa. Claro, estes são aspetos que a desenvolvedora já havia aperfeiçoado antes, sendo os mesmos já familiares aos fãs do clássico do PvE, Destiny.
São tão saborosos de facto que, por vezes, se torna difícil de gerir munições e mantimentos, do quão viciantes são as batalhas às quais dás a cara, e acredita, gerir estes itens pode provar-se uma tarefa maior do que sair vivo de certos confrontos.

Créditos: Bungie
O sistema de progressão presente no jogo é também bastante curioso e extremamente bem adaptado à história por trás do mundo e dos seus acontecimentos. São-te apresentadas seis fações. Cada uma com uma identidade única, e que te vão dar contratos para completares nas tuas partidas. Que tipo de tarefas tens de completar para concluir estes contratos, perguntas tu? Bem, é um bocado de tudo. Desde apanhar itens específicos, a derrotar robôs ou outros jogadores numa determinada área, ou até mesmo partir janelas.
Ao completares esses contratos, recebes itens como recompensa e novas formas de evoluir o teu Runner, ganhando assim acesso a itens importantes para o teu arsenal. Cada fação tem uma árvore de habilidades única, focada em aspetos diferentes de gameplay. Enquanto uma te permite reduzir o tempo que demoras a recarregar o teu escudo, outra pode permitir que dês mais dano com as tuas granadas. Uma mecânica simples, mas que fornece uma dinâmica nova e modular, permitindo que cada jogador evolua de forma única.
A cada run que fazes, podes escolher uma Shell diferente. Mas o que raio é uma Shell? Não é nada mais, nada menos que o teu “herói“. Cada Shell tem habilidades diferentes e adequadas a um tipo específico de jogador. Queres ser mais sorrateiro? Escolhe o Assassin. Talvez a agilidade seja o teu forte. Sem problema, vai de Vandal. Seja qual for o teu estilo, terás uma Shell apropriada e com habilidades que se provam simples de perceber e super eficazes no campo de batalha.

Créditos: Bungie
Mesmo que o jogo te dê a possibilidade de jogar a solo, recomendo vivamente que jogues com amigos ou com outros jogadores, pois o fator social de Marathon é o seu ingrediente secreto, e sem o qual pode, para muitos, perder o sabor. Ainda que alguns jogadores aleatórios sigam para o lado oposto do objetivo, a realidade é que é muito mais divertido planeares um ataque a outra equipa ou uma abordagem silenciosa com alguém do que por tua conta. Mesmo que o resultado final possa ser toda a equipa no chão a suplicar no microfone para se reviverem uns aos outros, aposto que te vais divertir imenso no processo.
Que planta é aquela? Oops, morri!
No entanto, nem tudo é cor-de-rosa. Embora as mecânicas sejam divertidas e os mapas concisos, dada a temática do jogo, podes-te encontrar perdido, pois o jogo não se esforça muito para explicar os seus ins and outs, deixando toda a aprendizagem nas tuas mãos.
O que será este item? Será que este acessório é importante? Vou ver o que é aquela plant- oops, morri. Esta curva de aprendizagem pode ser interessante se já estiveres dentro do género de extraction shooters, mas pode também provar-se uma barreira difícil de ultrapassar se, como eu, for a tua primeira experiência com o género.
Isto, claro, pressupondo que consegues entrar num jogo sem problema, porque deixa-me dizer-te que a UI do jogo, mesmo sendo visualmente impressionante, acho que seria mais simples ir para outro país sem mapa do que encontrar os contratos de uma fação específica entre partidas.
Não tenho dedos suficientes nas mãos para contar a quantidade de vezes que os meus colegas de equipa tiveram de esperar que eu conseguisse comprar um escudo novo, ou eu que eles percebessem qual o contrato que tinham ativo.

Créditos: Bungie
Uma narrativa perdível e recompensas insignificantes
A história por trás do jogo, infelizmente, também passa despercebida. Não que a mesma não seja mencionada, aparecendo imensas vezes na forma de mensagens das fações que desbloqueias, mas a não ser que prestes imensa atenção a todos os pequenos detalhes, tenho a certeza de que mesmo após dezenas de horas, ainda não vais saber o que raio se está a passar.
Queres um exemplo: para ti que já jogaste, sabias que o Roger Clark, voice–actor do Arthur Morgan de Red Dead Redemption 2, está no Marathon? Não? Nem eu, mas é verdade!
Por fim, e aquele que é, de veras, dos pontos que mais me fazem torcer o nariz quanto ao Marathon é que o que quer que consigas trazer contigo das tuas partidas é, de facto, irrelevante. Porquê, perguntas tu? Porque a cada temporada, o jogo dá reset a teu progresso com cada fação, nas tuas armas e no teu inventário, deixando-te apenas com as skins e acessórios que desbloqueaste ao longo da temporada.
Se vou dedicar tanto tempo da minha vida a este jogo, não seria bom ter algo para mostrar o meu progresso para além de uma arma cor-de-laranja ou um porta-chaves pendurado? Eu acho que sim e acredito que não estou sozinho.
Um caso de sucesso, mas em pequena escala
Sejamos realistas, não acho que estes pontos tirem por completo o mérito que o Marathon merece. Marathon é um jogo divertido, único e com imenso potencial. A Bungie e a Sony vão conseguir roubar o Arc Raiders do trono onde ele se senta? Não me parece, mas também não acho que tenham de o fazer. Marathon traz uma proposta diferente. É um jogo mais sério, competitivo e que pode coexistir perfeitamente com Arc Raiders e os restantes extraction-shooters de peso.
Isto é, se a Bungie levar em conta o feedback ativo da comunidade que quer ver este jogo crescer e for adicionando conteúdo novo, e, claro, se a PlayStation não puxar o fio como fez com o Concord e com o Highguard mais recentemente.
Os números não mentem, e pelas informações da SteamDB, Marathon estreou-se com um pico de cerca de 88.000 jogadores em simultâneo na Steam, estando numa queda minimamente inclinada desde então.

Créditos: SteamDB
Para um jogo comum, estes números são bastante sólidos, mas estão longe dos seis dígitos que a desenvolvedora e a sombra que é a Sony esperavam.
Resta esperar e acompanhar o ciclo de vida do jogo, na esperança de que este não seja o fim da icónica desenvolvedora de alguns dos maiores shooters da história dos videojogos.
Ver esta publicação no Instagram