Todos nós procuramos o conforto de outros tempos nos meios que consumimos, uma reação da idade que ganha maior peso quanto mais velhos somos, mas aquilo que encontramos muitas vezes é algo diferente do que nos lembramos. Não sei se é um termo científico, mas chamo isto “óculos da nostalgia”.
De certeza absoluta que já passaste por esta situação: vais à procura de uma consola antiga que tiveste, descarregas um emulador, instalas aquele jogo da tua biblioteca que já nem está listado na Steam, à espera de encontrares aquela obra-prima visual, mecânica e estratégica que definiu a tua infância ou um período específico da tua vida. Assim que o fazes, contudo, o que muitas vezes encontras (dependendo de há quantos anos foi a tua infância) é um amontoado de píxeis de qualidade muito duvidosa, controlos horríveis (lembraste dos Tank Controls dos Resident Evil originais? Lembras mesmo?), dificuldade altíssima e uma ligação distante.
Este choque entre o que te lembras, a tua memória, e a realidade é o produto direto daquilo que chamamos de “óculos da nostalgia”, um fenómeno que nos leva a filtrar as arestas do passado para preservar uma versão idealizada da nossa experiência, quase como os “óculos cor de rosa” no início de uma relação que fazem todas as bandeiras vermelhas parecerem brancas. A nostalgia não é apenas um sentimento caloroso, é um mecanismo cognitivo complexo que altera a nossa perceção estética e crítica, transformando falhas técnicas em “charme” e limitações em “identidade”.

Este é o Command & Conquer: Red Alert da PlayStation 1, parece bonito na imagem parada, mas liga a tua PS1 e joga 5 minutos, é um desafio que te lanço.
Isto não é um erro, nem uma doença no nosso cérebro, é sim algo propositado. A nossa memória não funciona como uma gravação de um álbum em CD ou Vinyl, nem como uma fotografia, mas sim como algo reconstruído e adaptável, na qual muitas vezes não podemos confiar na totalidade.
A nostalgia tende a aparecer de duas formas distintas: Nostalgia Restaurativa e Nostalgia Reflexiva, explicadas no livro The Future of Nostalgia de Svetlana Boym. A primeira explica um desejo de regressar ao passado, enquanto que a segunda assume uma forma mais consciente de lembrar. Ambas apontam ao facto de tendermos a procurar no passado um refúgio que o presente já não é capaz de nos oferecer.
No gaming isto significa que não nos lembramos exclusivamente do jogo, mas sim do contexto em que o jogámos. Quanto à nossa infância ou adolescência, isto significa que nós estamos a lembrar-nos de um sentimento de liberdade das responsabilidades da vida adulta, o ambiente quente e despreocupado da casa dos pais ou das tardes de jogatina com os nossos amigos nas férias de verão que nunca mais acabavam. Acreditem que o PES6 não é nem de perto tão bom como vocês se lembram quando criticam os jogos de futebol atuais.
A nostalgia por conteúdou ou média que consumimos no passado, especialmente nos períodos que menciono em cima, funciona quase como uma barreira contra a crítica real, deixando a nossa mente preencher os problemas como baixos FPS, baixa contagem de polígonos, animações partidas e músicas que parece que foram gravadas com um microfone dentro de uma panela de cozinha, com uma imaginação do que nós fomos, abastecido pela lembrança da dose de dopamina que nos preenchia na altura.

Pelo menos o meu Sporting já não se chamava Esportiva no PES 6.
Para quem apanhou o gaming ainda mais cedo do que os exemplos que tenho dado em cima, refiro-me agora especificamente à altura em que jogávamos em monitores CRT, ainda se adiciona um ponto de viragem entre a nossa memória e a atualidade.
Os jogos na altura eram feitos especificamente para este tipo de monitores, que tinham taxas de atualização mais baixas, não tinham ecrãs retos, eram ligeiramente concavos (os ecrãs flat só surgiram mais tarde) e ainda tinham o bónus de nos levantar os pelos da mão quando a aproximávamos da tela.
O brilho destes monitos e a forma como nos mostravam a imagem, que para quem não sabe era disparada na direção da nossa cara, criavam uma suavidade natural nas arestas dos polígonos, dando um aspeto mais interessante e provavelmente mais próximo da nossa memória do que conseguimos neste momento obter. É por essa mesma razão que muitos colecionadores, eu incluído, têm televisores antigos para jogar consolas antigas, de forma a recriar uma imagem mais bonita e fidedigna da nossa nostalgia do que qualquer televisão 4K UHD consegue fazer hoje em dia.
Por isso, apesar de não poderes confiar totalmente na tua memória, por tudo o que referi em cima, nem tudo é culpa do teu cérebro, dependendo de qual a época em que começaste a jogar.
Isto, contudo, não é uma desculpa para os mais velhos. Surge outro jogo de mentira na nossa memória com isto, o nosso cérebro aprende a adaptar-se a uma referência absoluta daquilo que podemos ter em cada momento, decorando automaticamente os limites do “realismo” numa determinada data, e não se percebendo que estes continuaram a evoluir, passando a lembrar uma visão deturpada inspirada no presente, mas adaptada ao passado. Para simplificar esta minha sopa de palavras, pensa assim: se X é o máximo do realismo que obténs num ano, os teus sentidos declaram esse X como uma referência máxima, independentemente de quantos anos passarem, ou seja, hoje quando lembras um jogo antigo, estás a pensar automaticamente no realismo absoluto de hoje, que era real na altura, mas não é real quando comparado lado a lado com hoje, se é que me fiz entender.

Uma coisa é certa, a aura de jogar CS 1.6 num monitor destes é inigualável.
Agora vamos onde eu queria chegar com este artigo de opinião que já vai longo: a forma como estes “óculos de nostalgia” podem ser uma armadilha de julgamento. De uma certa forma, lembrar as coisas de forma embelezada ajuda-nos a procurar a preservação do que já lá vai e mesmo trazer de volta géneros que já não ressoam com as gerações mais jovens, como é o exemplo dos boomer shooters ou dos RTS, real time strategy.
Mas por outro lado, este sentimento serve de arma para as empresas se aproveitarem dos seus jogadores, refiro-me diretamente à recente moda, impulsionada em velocidade e ambição pela inteligência artificial, de lançar remakes e remasters a torto e a direito, tentando imitar a visão que tínhamos dos jogos e não necessariamente a forma como estes eram: Tomb Raider, Silent Hill, Resident Evil, Metal Gear Solid, entre tantos outros.
Esta barreira nostálgica cria um escudo contra a inovação, porque somos levados a acreditar que o auge do design de videojogos bateu em 1996, 97, 98, 2005, 2006, etc., dependendo da geração que está a ler.
A verdade é que os jogos continuaram a inovar e não podemos ficar cegos, porque os “óculos da nostalgia” tendem a filtrar o presente, à evolução que a indústria viveu. As melhorias gráficas são gritantes, mas não são a única evolução. O design de níveis evoluiu e tornou-se mais humano, a dificuldade é mais orgânica, os textos e narrativas são mais trabalhados e artísticos.
Temos de ser capazes de saber quando tirar os “óculos da nostalgia” para conseguir ver novas cores e perceber que os nossos melhores momentos no gaming já lá vão, mas lembrar também que melhores momentos ainda estão para vir. Só não podemos ficar estáticos e ancorados a um código antigo escrito num disco através de uma ponte emocional que muitas vezes é ilusória.
“O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.”
– Bernardo Soares, em “Livro do Desassossego”
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