Imagem: LEC | Riot Games

A Origen terminou esta temporada regular do LEC no 2º/3º em empate de pontos com a Fnatic. No ano passado chegou a vencer o Rift Rivals, competição que coloca frente a frente as melhores equipas da América do Norte e da Europa. À frente desta super equipa europeia está um português, André Guilhoto.

O treinador português treinou 4 equipas em Portugal – Panthers, EGN, FTW e K1ck, 1 equipa em espanha – Giants e é já a segunda equipa que treina no LEC (EU LCS) tendo passado pelo Schalke 04. Em todas as equipas que passou deixou marcas profundas nos seus métodos de trabalho e ganhou já 2 prémios de treinador do ano dos Prémios Esports e 2 prémios de treinador do split na Europa.

A RTP Arena teve a oportunidade de conversar com o treinador da Origen, André Guilhoto, antes da final desta temporada do LEC. Foram abordados temas desde os seus prémios, vitórias e percurso até declarações polémicas e fases menos boas da sua carreira. Podem ler a entrevista na integra abaixo:

Imagem: LEC | Riot Games


Em primeiro lugar, parabéns pelo 2º prémio consecutivo de Melhor Treinador nos Prémios Esports Portugal. O que significa para ti receber este reconhecimento do teu trabalho pelo 2º ano seguido?

Guilhoto: “Obrigado! Na verdade na altura de receber o prémio não dei o valor que merece. Estava focado no jogo que tinha no dia a seguir e ainda que é sempre bom receber prémios individuais, estou há 2 anos e meio numa luta e esforço constante para ganhar um título de equipa e sempre será o mais importante.

No entanto depois desse momento passado consegui saborear esse feito e com tanto talento em Portugal é sempre um grande orgulho ser reconhecido pelo fantástico plantel de júris e publico.

No primeiro prémio foste galardoado devido ao teu trabalho à frente do Schalke 04. Agora, devido ao teu trabalho no comando da Origen. Muitas vezes os prémios de treinador têm um sabor ingrato quando são ganhos ao serviço da mesma equipa, com muitos fãs a duvidarem da capacidade do treinador de apenas ter a sorte de trabalhar com uma boa equipa. No entanto, dois prémios, duas equipas diferentes, tem um sabor diferente vencer desta forma?

Guilhoto: Tem um sabor diferente no sentido em que o trabalho é “validado” de uma forma diferente. É a confirmação que o meu bom ano no Schalke 04 não foi um ramo de sorte.

Recentemente numa entrevista deixaste fortes palavras quanto à concorrência para este prémio, dizendo que enquanto mais ninguém estiver no LEC o prémio continuará a ser teu. Estas palavras deixaram alguns fãs de outros esports descontentes por não estares a dar devido valor às outras modalidades. Queres elaborar um pouco mais sobre este assunto?

Guilhoto: Acho que na entrevista não me expliquei muito bem. Neste momento LEC tem um dos formatos mais competitivos de todo o Esports. Estou neste momento numa equipa que provavelmente é top 15 Mundial num formato onde há bastante mais equipas competitivas (a nível Mundial) que em qualquer outro esport.

Depois há também a vertente que o trabalho de um treinador numa equipa de esports é difícil de ver, na verdade perto de impossível onde ninguém excepto quem trabalha diariamente com o treinador sabe quão bom/mau o trabalho que faz é. Isso faz com que praticamente a única métrica para prémios individuais sejam os resultados.

E para mim em termos de qualidade da competição/qualidade da equipa/resultados estou um bom passo à frente. Se tivermos um treinador numa equipa de CS no top 10 Mundial, ou algo semelhante a minha opinião obviamente muda. Mas acho que neste momento a minha “competição” mais próxima vem do Fearlesss, porque me parece que é o treinador mais próximo de estar na LEC, e acho que já merece pelo trabalho feito nos Giants.

Já treinaste em Espanha, uma das mais difíceis ligas europeias, estás há mais de 2 anos no mais alto nível europeu a treinar no LEC/EU LCS. Com esta experiência internacional e com uma visão de fora, qual é a tua opinião do estado actual do League of Legends em Portugal? E como vês o futuro da modalidade?

Guilhoto: Acho que neste momento passámos a ser uma “farm league” o que parece mau mas na verdade é bastante bom!

Antes, ir para fora como Português era um milagre, neste momento temos bastantes embaixadores do LoL Português lá fora e isso certamente deve-se ao excelente trabalho que a LPLOL e principalmente as equipas Portuguesas fizeram.

No entanto, e isto é o que me preocupa em relação ao futuro, o número de seguidores do competitivo (LEC, LVP, LPLOL) é bastante reduzido. A liga tem poucos viewers, eu (no LEC) tenho pouca percentagem de seguires portugueses, o Attila (na LVP) tem pouca percentagem de seguires portugueses etc…

O futuro na verdade não o vejo a mudar muito onde os melhores jogadores vão continuar procurar sair para Espanha e outros sítios, e os clubes/ liga vão continuar a ser muito bons a formar talento. Mas até que haja uma mudança de mentalidade no público e plataformas de notícias, o LoL em Portugal não crescerá mais que isso.

E quanto ao estado geral dos esports no nosso país? O que achas que nos falta para estarmos noutros patamares?

Guilhoto: Não conheço muito bem a realidade dos outros esports, mas não me parece que estejamos longe de ninguém no geral. Magic e FIFA estamos bastante bem representados lá fora pelo que sei.

CS, LoL e outros jogos em equipa estamos obviamente um bocado longe mas parece me simplesmente que é uma questão de mentalidade, hábitos e cultura.

Vivendo na Dinamarca deu-me essa perspectiva… Aqui já conheci o presidente da Dinamarca que veio jogar CS com os Astralis e que apoia financeiramente e logisticamente a Blast. Aqui os pais/avós, não vêem os esports como algo estranho (para não dizer outra coisa). Aqui com o frio que faz [risos], é muito mais natural que fiquem em casa a jogar em vez de sair para a praia ou futebol. Aqui os jogadores de esports vão à televisão nacional, e saem nos jornais de desporto sempre que há um evento. Aqui há uma mentalidade global de procurar ser o melhor naquilo que se faz e não se contentar com pouco. Aqui formam-se os melhores jogadores de Counter Strike e League of Legends…

Vês outros jogadores ou treinadores (portugueses) a conseguirem alcançar o nível do LEC num futuro próximo?

Guilhoto: Sim, o Fearlesss e o Attila, e talvez o Xico e o Rhuckz. Isto para o ano digo, depois de um ano obviamente há mais mas já considero isso futuro distante numa timeline dos esports.

Voltando um pouco atrás na tua carreira, é sabido que treinavas basquetebol no Sporting e de seguida rumaste ao League of Legends português. Treinaste Panthers, EGN, FTW e K1ck – onde realizaste o primeiro split perfeito da LPLOL, antes de seguires para a liga espanhola. Queres contar-nos um pouco sobre toda esta sequência de eventos?

Guilhoto: Uii…Vou tentar resumir!

Tudo começou com uma equipa da minha Universidade (IST). A equipa juntou-se aos Panthers e quando acabou eu criei outra equipa e juntei-me aos EGN. Depois disso fui chamado para ajudar a equipa principal na Final onde ficamos 2º e foi aí que conheci o Amadeu Carvalho. A partir desse momento e até à LEC não nos separamos. Ele juntou-se à FTW e levou-me. Juntou-se aos K1CK e levou-me. E depois eu juntei-me aos Giants e levei-o.

Tudo aconteceu muito rápido. Estive praticamente um split em cada uma destas equipas e dei logo o salto para Espanha. Na verdade podia ter dado esse salto 1 split antes (porque ao mesmo tempo estava com assistant coach dos Giants OTB) mas não queria sair de Portugal antes de ganhar pelo menos 1 vez a liga.

Os esports já mudaram muito desde essa altura, falamos de 2015 até fins de 2016. Como foi a abordagem da Giants na altura para te levar para Espanha – sendo que na altura já davas uma “perninha” à equipa espanhola como analista?

Guilhoto: A minha mudança K1CK → Giants na verdade poderia ter sido bastante mais limpa, mas é um tema que não quero aprofundar muito onde envolve demasiados terceiros.

O que interessa é que os Giants fizeram o esforço financeiro de buyout para mim e a botlane que lhes pedi (Attila e Joo). Foi tudo muito rápido não houve muito tempo para tryouts nem grandes discussões, mas foi algo que me deixou muito contente porque sabia que era isto que queria fazer para o resto da vida e tinha que dar esse salto 100%.

Durante o teu tempo ao serviço da Giants, as coisas nem sempre correram bem. Chegaram a colocar em causa o teu trabalho durante essa época?

Guilhoto: O primeiro split dos Giants não correu nada bem mas não acho que o meu trabalho tenha sido colocado em causa. Eram bastante visível as limitações que tínhamos em termos de jogadores na equipa…

Conseguiste entretanto dar a volta a uma má fase e colocar a Giants Gaming novamente nas bocas do mundo. A gigante Espanhola estava de volta à EU LCS. Depois desta conquista não houve no entanto como te segurar em Espanha e partiste para um novo desafio, o Schalke 04. A direcção da Giants tentou convencer-te a ficar?

Guilhoto: A direcção dos Giants tentou que todos ficássemos na verdade…mas o poder financeiro e as condições que outras organizações Europeias na altura podiam oferecer eram bastante superiores às dos Giants então tive que me separar das pessoas que há 3 meses atrás me deram das melhores alegrias da minha vida.

Imagem: LEC | Riot Games

No Schalke 04 tiveste mais um ano de ascensão começando mal mas terminando quase da melhor maneira possível, que seria a entrada no play-in dos Worlds. Faltou apenas aquela difícil final contra a G2 Esports. Como recordas todo esta ano ao serviço do alemães? E como era na altura treinar uma equipa na Alemanha em comparação com Espanha e Portugal?

Guilhoto: Sim, não ir a esses Worlds é algo que sempre me vai ficar cravado na alma, mas na altura já estávamos com uma carga emocional bastante grande vinda da final.

Acho que o meu ano ao serviço do Schalke 04 foi bastante positivo. Consegui no meu primeiro ano chegar a uma final e ganhar pela primeira vez o prémio de melhor treinador da Europa.

Foi na verdade um ano fundamental para me assumir como um dos melhores treinadores da liga e agradeço imenso ao Schalke 04 por me dar essa oportunidade. Treinar na Alemanha em comparação a Espanha e portugal é só uma questão da liga. A liga é mais competitiva porque é a liga europeia então todo o trabalho, stress, commitment etc… é bastante maior.

Logo após este 2º lugar nas Regional Finals de 2018 rumaste imediatamente à Origen que tinha acabo de ser adquirida pela RFRSH Entertainment. Esta equipa faria parte do novo LEC – Ex-EU LCS e era quase um projecto totalmente novo, mantendo poucas bases da organização espanhola criada por xPeke em 2014, mudando mesmo a sua sede para a Dinamarca. Como cabeça desta nova equipa de League of Legends como foi todo o processo de construção da equipa?

Guilhoto: Foi bastante divertido. Foi a primeira offseason onde eu verdadeiramente tive um dizer nos nomes dos jogadores e como foi a altura de franchise, havia muitas equipas a disputar os mesmos jogadores. Foi duro e com muitos movimentos mas no final valeu a pena.

Eu sabia que as peças fundamentais que queria eram o Nukeduck e Alphari, e numa altura onde conseguir Upset/Rekkles/Kobbe era impossível (tinham contrato), o Patrik também se tornou uma prioridade. O Kold era também a nossa primeira opção para Jungle dentro do que havia disponível e o Mithy veio depois dos TSM contactarem-nos sobre a sua possível venda.

Todos tiveram a sua historia o que tornou a construção desta equipa tão mais divertida e pessoal.

Quais eram os objectivos imediatos para a Origen?

Guilhoto: Os principais objectivos para os Origen eram playoffs e Worlds.

A equipa abriu as hostes com grande impacto no recém formado LEC garantindo imediatamente um 2º lugar na época regular e playoffs do Spring Split, partindo para vencer o Rift Rivals 2019. Os resultados foram surpreendentes para ti e para a organização? Ou sempre acreditaram ser possível?

Guilhoto: Desde os primeiros momentos de scrims eu pensei que era possível conseguir os resultados que obtivemos. Obviamente acabou por ser surpreendente que ganhássemos aos Fnatic e chegar à final mas sempre acreditámos em nós e que isso era possível. Sobre os RR, sempre vai ser um torneio onde Europa é favorita. NA não é neste momento competição para a Europa.

Segue-se um 8º lugar no Summer Split e uma não qualificação para os Worlds com um azedo 4º lugar nos Regionals. Num ano caíram do céu ao inferno, isto abalou a organização?

Guilhoto: Não muito porque internamente sabe-se o que aconteceu. Na Gauntlet tivemos que jogar com o nosso Jungler sub por temas de saúde que também afectaram o split de Verão entre outras coisas.

Foi uma situação bastante azarada e fora do controlo de praticamente toda a gente.

Em 2020 as coisas voltaram a melhorar e terminaram a temporada regular empatados com a Fnatic em 2º/3º lugar, garantindo lugar nos playoffs. Esta época teve ainda a calamidade que todos vivemos neste momento causada pela pandemia do COVID-19. Como é que isto afectou a equipa da Origen e mesmo toda a organização do LEC?

Guilhoto: O COVID-19 impediu a LEC de se realizar no estúdio em Berlim. Para nós que vivemos em Copenhaga, significou que deixámos de viajar todos os fins de semana para Berlim.

Mas em termos da nossa rotina diária não mudou praticamente nada. Mesmos horários de treino, continuámos a descolar-nos para a oficina e a voltar para casa depois dos treinos.

O que mudou foram os nossos hábitos de higiene, e a quantidade de gente na oficina, onde neste caso, éramos apenas nós (da equipa). Todo o restante staff (CEO, parte financeira, designers etc) passaram a ficar em casa.

Infelizmente nos playoffs a Fnatic enviou-vos muito cedo para a losers bracket onde venceram a Rogue mas não conseguiram ultrapassar a G2 Esports. Fica um sabor agridoce nesta fase, sabendo que este Split poderia ser uma perfeita redenção? Qual era o vosso objectivo nesta temporada de primavera?

Guilhoto: No inicio do Spring o nosso objectivo passava por chegar aos playoffs e garantir que tínhamos pontos indo para o Summer que nos ajudassem a qualificar para os Worlds. Mas a meio do Split o objectivo mudou para ganhar o Split já que vimos que a nossa qualidade era superior ao que esperávamos no início e que o crescimento foi mais rápido que o que antecipámos.

Isso traz ao 4º lugar no Split um sabor bastante amargo porque não reflecte o nosso nível.

Imagem: LEC | Riot Games

Quando chegam derrotas em fases de eliminação, as coisas tornam-se sempre mais pesadas para os jogadores. Como é que geres a carga emocional e de trabalho com os teus atletas após uma fase destas?

Guilhoto: Foi importante os jogadores perceberem que esta equipa tem apenas 1 Split junto e que as 2 equipas com quem perdemos já têm as suas bases bastante mais assentadas. No caso dos G2 apenas foi uma mudança de role mas no mid game jogam igual, e no dos Fnatic mudou apenas um membro que apesar de mudar a dinâmica early game, não mudou a forma como os Fnatic jogavam mid-late do ano passado.

Vendo isso e fazendo um esforço para logo a seguir à serie referir os pontos positivos que tivemos durante o Split é bastante importante. Preciso dos jogadores a acreditarem com a mesma força para o Summer e isso só é possível se eu for o primeiro a dar essa chamada.

Acho que a nossa equipa reagiu muito bem à derrota e vamos sair destes playoffs mais forte do que quando entrámos.

Este fim de semana temos o vencedor do Spring Split do LEC. Entre MAD Lions, G2 e Fnatic, quem achas que leva a taça?

Guilhoto: Fnatic mas acho que os G2 serão a melhor equipa. É algo estranho de se dizer mas tem a ver com o facto de os G2 se terem que preparar contra 2 equipas o que dá uma vantagem gigante aos Fnatic.

O que é que podemos esperar da Origen no próximo split?

Guilhoto: Ganhar o Split, esperar algo menos é enganarmos-nos em relação à nossa qualidade.

Qual é o teu objectivo pessoal para um futuro próximo, com ou sem símbolo da Origen ao peito?

Guilhoto: Primeiro quero ganhar um Split da LEC. Nada mais me importa neste momento. Tenho 2 prémios de melhor treinador português e 2 prémios de melhor treinador europeu e trocava-os num piscar de olhos por outra oportunidade de disputar o título da LEC.

Não é uma questão de se conseguir, é uma questão de quando, e quando o conseguir aí pensarei noutros objectivos relacionados com outras regiões, mundiais ou mesmo fazer algo para ajudar a scene Portuguesa.

Mas neste momento só penso numa coisa, ganhar o Split, custe o que custar.

Resta agradecer ao André esta entrevista que nos concedeu e desejar a maior sorte no próximo split do LEC.


O Spring Split do LEC está prestes a terminar com a G2 a jogar contra a MAD Lions pelo último lugar na final já às 16h desta tarde. A vencedora irá jogar com a Fnatic na grande final amanhã, às 16h, pelo título de Campeões de Primavera da Europa. A competição passa em directo no canal Twitch do LEC.

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